Dia dos avós e Dona Edite.

E hoje seria um bom dia pra voltar pro meu quarto na casa dela, o de paredes azuis, com lençóis milimetricamente esticados, com toalha limpinha deixada no pé da cama, com todos os papeis e moedas que ela achava nos meus bolsos deixados na mesa do computador. Hoje seria um bom dia pra vê-la abrindo a porta e falando baixinho “Nana, você quer almoçar agora?”. Hoje seria um bom dia pra avisá-la que estou indo tomar banho e qualquer coisa ela me chame, seria um bom dia pra escutar aquela risada meio tímida meio sem vergonha que só as avós possuem. Seria um bom dia pra escutar todas as histórias revolucionárias de uma jovem do sertão, e de todo o amor que ela nunca deixou de sentir pelo meu avô. Seria um bom dia pro xêrinho na cabeça, que era na verdade uma benção. Seria um bom dia pro nosso segredo, que sou a neta mais bonita, “mas não conte pra ninguém, viu?” (desculpa outras netas), seria um bom dia pra escutá-la dizer que somos tão parecidas e que essa história de morte não passa pela sua cabeça, apesar de “eu ser quase uma velha de 100 anos”.
Seria um bom dia pra comermos juntas um pãozinho assado e vê-la falando pela milésima vez que sempre gostou de café, enquanto mexe como tanto charme a xícara que é só sua e de mais ninguém, e daqui a pouco vê-la pegando o guardanapo e limpando o cantinho da boca. Que charme, não é a toa que no carnaval jogavam lança perfume no seu decote.
Ai vó, em algum momento a vida separa mesmo sem mortes, separa pela ausência de nós, e como é difícil aceitar isso.
E assim como naquele sonho maluco que tive logo quando te deixei, é um alívio saber que você é ainda tão presente em mim, porque são em dias como o de hoje e como tantos outros, que fecho os olhos e tenho tantas lembranças boas, e assim, consigo me sentir tão acolhida e agradecida por você existir em muitas dimensões. Ainda fico me perguntando o que seria da minha vida se eu não tivesse tido Dona Edite, que me ensinou quase tudo que eu sei, principalmente que pra ser mulher, é preciso ter coragem e mais um pouco de ousadia. Que saudade da sua lucidez e do seu colo, vovó. Rainha <3

vovó e be

Foto de uma das últimas vezes que fui visitá-la. Ela sorria com Bê, brincava, falava das bochechas dele. Se ela já estava feliz com esse menininho fazendo graça, imagina se ela ainda tivesse a consciência de saber que ele é meu? Ok, ela diria “Mas só dois filhos, Nana? Você precisa ter pelo menos mais dois, como eu”, hahaha.

Um feliz dia dos avós para todos!

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Ana Medeiros
É a neta de D. Edite. Ana comanda o #ACQMVQ e vive diariamente decorando aqui e ali. Trabalha home office produzindo conteúdo para o blog e outras empresas das internetes. É mãe de dois pioios lindos, ama comer, desaguar nas palavras, e não dispensa uma caipirinha no fim de semana. Sabe que ser livre também é perder o controle, que morar é mais do que habitar e que um abraço apertado é melhor que banheira de ofurô.
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3 Comentários

  1. Ana, seu texto me deixou extremamente emocionada pela delicadeza. Amanhã faz 01 ano que minha vó partiu e choro todas as vezes que ainda escuto sua voz dizendo o quanto me ama. O que consola é saber que estes seres especiais não morrem: ficam encantados.

  2. Que bela homenagem! Também tenho ótimas lembranças da minha vó e grande parte do que sou hoje, devo aos ensinamentos e exemplos de vida dela. Sinto uma saudade imensa, mas tenho certeza, que mesmo estando num outro plano, sempre estará olhando, guiando, orientando e dando o tão confortável colo. Todas as avós/avôs deveriam ser homenageados todos os dias. bjs

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