Casas são asas e raízes

{Hoje é dia de Manu!  Essa mulher incrível foi um encontro bom que a vida me presenteou lá em 2013. De lá pra cá nossas vidas mudaram tanto, até que estamos aqui de novo, conectadas através de uma ideia do morar que vai muito além das nossas paredes. É uma honra sem tamanho tê-la aqui comigo nessa nova etapa. Manu é resistência afetiva no morar. Bem-vinda, família tão especial}

Venho de um povo no qual a casa mora para os encontros. Das lembranças mais fortes, tenho a casa da Bisa Ioió e seus domingos cheios de primos, uma mesa enorme de lanche e as duas geladeiras sempre cheias, uma de gostosuras doces e uma de salgadas. Do outro lado da família a casa da vovó Branca e vovô Zé, com almoços e festas familiares cheias de alegria e a sensação de estarmos sempre em carnaval. Foram lugares onde passei toda minha infância e, olhando pra trás, vejo que foi ali que nasceu em mim a casa como memória e afeto.

Passei a adolescência inteira pulando de apartamento em apartamento, vivendo a delícia de desbravar o mundo naquela paixão dos 20 anos pra tudo que a vida apresenta. Meus pousos eram frios, nunca meus, abrigavam meus sonos e poucas horas de descanso entre estágios, estudos e baladas. Mas o lugar de voltar estava sempre ali, a casa de mãínha era um abraço longo e confortante para o qual eu sempre tinha a mochila pronta pra voltar quando a saudade rasgava o peito.

A vida de gente grande me chegou em cidades enormes, onde eu percebia a relação das pessoas com seus espaços físicos de forma curiosa, sem muito entender onde morava a casa dentro delas. E eu, sempre de lá pra cá, tentando buscar naqueles lugares o que me traria um cadinho que fosse de pertencimento: um mural de fotos, plantas, objetos de família, qualquer coisa que me remetesse ao lugar de onde vinha.

A liberdade aquariana nunca me permitiu voltar pra casa da família, o mundo era tão doce pra mim em minhas aventuras porque eu sabia que tinha pra onde voltar, aquele abraço de mãínha estava lá pra quando eu quisesse. Onde quer que eu fosse, minha casa eu carregava dentro de mim. Até ganhar de presente um filho no ventre e a vontade de dar a ele todo esse afeto em forma de casa que sempre tive de maneira tão marcante. Hoje, na Bahia, vivemos em uma bioconstrução que tem sido o projeto mais incrível da minha vida, porque aqui conseguimos colocar em prática todo o sentimento que tenho sobre o que é um lar para muito além de uma estrutura física de morar. De forma bem resumida, esse projeto começou há dois anos atrás, quando fizemos um chamado na internet para voluntários que gostariam de nos ajudar a construir esse ninho de barro, pedra e madeira. Foram mais de 180 pessoas durante 10 meses colocando a mão na terra e o coração na casa. Tanta história e memória que não cabem nos seus 100m². Para quem quiser saber mais, lá no Facebook tem uma página com todo o histórico de textos e fotos desse processo. E logo também venho trazer aqui um pouco de como foi tudo isso.

Hoje, diferente dos tempos de andanças, vivo este espaço quase que 24 horas por dia. O que significa que aqui encontrei campo aberto pra criar essa relação tão afetiva e amorosa com minha casa. Sinto que ela me habita, cada dia mais, como a extensão de todas as memórias familiares das quais nunca me desfiz. Ao mesmo tempo, a construção de mais tantas outras que vêm nascendo com minha família, meus amigos, os voluntários que sempre voltam para casa que é deles também. Passo meus dias enfeitando as paredes com plantas, desenhos das crianças, inventando moda, cuidando dos jardins, acendendo incensos, trocando coisas de lugar, recebendo mil crianças pra brincar e bagunçar tudo o que eu acabei de arrumar (vivemos em uma fazenda com mais 17 famílias e 32 crianças). Chega gente, água pra passar café fresco, prosa boa, sai gente, mais visita, estourar pipoca pras crianças, compartilhar emoções da vida cotidiana, rir, chorar, varrer mil pipocas no chão, molhar as plantas enquanto conversa, mil universos se encontram dentro de um só lugar.

A casa da gente é, pra mim, a raiz forte que nos traz essa sensação de pertencimento. E, ao mesmo tempo, a certeza de que posso levantar vôo a qualquer momento porque tenho um porto pra pousar. Casas são asas e raízes. São infinitas possibilidades de ser, são representações físicas da nossa energia não palpável, são nossas memórias ancestrais expressas em cores e formas, é o nosso coração pulsando fora do peito todo o amor que vibramos aos nossos. Aqui meus filhos vivem descobertas rotineiras e têm seus mundos expandidos continuamente, na casa que eles ajudaram a construir também, com pedras de barro na cabeça que nem dois banhos seguidos conseguiam tirar. Memórias fortes como as paredes que aqui estão nos acolhendo. A casa é o acolhimento de todo desenvolver pessoal e espiritual de cada um de nós, nosso espaço sagrado onde aprendemos a reconhecer mágicas em pequenos rituais cotidianos. Crescemos junto com ela, estamos nos transformando junto com ela. Somos um corpo só que se acolhe e se cuida, que cresce com intensidade e com o amor na guiança, isso sempre.

Tagarelei demais, né? Empolgação de quem acaba de chegar nessa casa tão bonita que já frequento há algum tempo, mas até então apenas olhando pela janela. Sou imensamente grata pela oportunidade de estar aqui compartilhando devaneios que se espalham para encontrar outros iguais, ou não. Limpo meus pés sujos de areia da praia para entrar e honro esse chegar com o peito cheio de gratidão!

{Blog: Notas sobre uma escolha}

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