Todos os dias faço o caminho de volta no carro respondendo perguntas difíceis, inacreditavelmente complexas. Falo com meus filhos sobre economia, política, sexo, problemas de saneamento, maconha ou explico porque não tenho um namorado. Quando assistimos algum programa ou série, dou pausas e aponto comportamentos inadequados, discuto sobre física e biologia ou simplesmente digo que “essa cena foi muito machista”. Mostro no smartphone bem no meio do mercado um mapa mundi pra explicar onde fica a Espanha. Sou a maior responsável sobre o contato deles com as coisas complicadas ou não tão simples da vida, que privilégio da porra.

Ando pelada pela casa e apresento diariamente o meu corpo, um corpo sagrado, um corpo que gerou suas vidas, um corpo de uma mulher adulta, um corpo livre. Meus filhos não riem quando estou somente de calcinha, talvez eles comentem de um furinho no tecido, daí eles riem (Pq né, ta saindo uns pelinho ali, mãe). Sou a principal referência do feminino para dois homens, que responsabilidade maravilhosa.

Nunca arrumei a casa sozinha na presença deles. Divido tarefas, falo sobre a lógica de todos precisarem colaborar, não colo cartazes pra ganhar estrelinhas. Aqui não existe recompensa por fazer o que é necessário para ser um homem que resolve suas coisas sem explorar mulheres. Se alguém me pede um copo d’água enquanto estou almoçando, sabe que vai levar um não, aliás, separo dois copos e deixo-os próximos ao filtro. Sou a mulher que está ensinando que não existe nenhuma possibilidade deles serem dois imprestáveis, que honra!

Sou extremamente sincera sobre as minhas necessidades. Meus filhos sabem que tem dias que preciso dormir até mais tarde e não me incomodam com isso, sabem que tem dias que preciso encontrar meus amigos pra tomar uma cerveja e ficam felizes em saber que vou dançar enquanto eles dormem com os avós. Meus filhos sabem quando choro de tristeza, sabem quando levo um pé na bunda, sabem quando estou com cólica menstrual. Sabem também que nem sempre são prioridade, porque muitas vezes eles não são mesmo. Sou a pessoa que mostra na prática o direito que todos temos a nossa individualidade e liberdade.

Tem noção da “bença” que é?

Fico muito feliz em ser mãe, ainda que deteste a romantização desse papel. Não quero ser chamada de super, heroína ou batalhadora. Eu sou privilegiada sim, porque tenho dois pequenos seres sob os meus cuidados, mas muito mais que o cansaço e a frustração que sinto diariamente por tantos motivos incluindo a minha maternidade, sou a pessoa que tem a dupla chance em ver as coisas mudando da próxima vez, num próximo instante, numa próxima década, em um próximo tempo. Sou eu construindo e renascendo duplamente toda manhã, através de dois carinhas que são criados com tudo que eu acredito que posso fazer de melhor por eles, e do que eles possam fazer depois de melhor pro mundo.

Meus filhos são crianças incríveis, porque eles tem uma mãe incrível.

É uma grande oportunidade.

 

8 COMMENTS

  1. Eu cheguei hoje no teu blog e estou apaixonado por esse cantinho. Inclusive, já favoritei ele em minha aba de sites amorzinhos.

  2. Parabéns! Incrível como você mostra o correto para os seus filhotes, com certeza serão grandes homens!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here