Vovó Edite (mais uma vez)

Hoje é dia dos avós. Minha vó Edite foi meu chão, meu teto e meu jardim, por muitos e muitos anos.

Não sei bem como começou essa relação, mas aos 10 anos de idade arrumei minhas malinhas e pedi um quarto na casa dela, quando vi já estava matriculada na escola mais próxima e tomando banho todos os dias naquele banheiro gigante que nem deve ser tão gigante assim, eu que era muito pequena.

Minha vó gostava de lençóis esticados e pra isso prendia-os com alfinetes no colchão. Também gostava de mesa posta e guardanapo de tecido. Ela não admitia que roupas fossem guardadas de qualquer jeito e toalhas de banho só estariam secas e prontas pra usar no próximo banho se antes fossem para o sol. Xícara sem pires, jamais. Cesto do banheiro cheio, muito menos. Minha vó guardava todos os sacos plásticos dobradinhos, dava até pena pegá-los pra colocar no cesto do lixo.

Realmente não sei quando ela começou a colecionar caixas de sapato com coisas dentro, mas eram muitas. Dentro do guarda-roupa umas dez, embaixo da cama, umas 12, em cima do armário mais 18. Dentro de cada uma delas, tantas coisas pequenas e perdidas, coisas do passado e do presente misturadas: fotos do meu avô no exercito e do meu pai e tio (que são gêmeos) usando vestidinhos brancos, meias do meu primo mais velho quando bebê, uma bonequinha em miniatura presa numa cadeirinha de balanço. Documento sem validade, saquinhos de plástico pra fazer sacolé, dois dados e seis pinos, um pacote de moedas do tempo do cruzado/cruzeiro, três canetas coloridas sem tampas. Naquela maior tinha velas de sete dias, junto com uma imagem de santo com o pescoço quebrado esperando pra ser colado, dois rosários e uma caixa de fósforo de palitos grandes.

Vovó cochilava demais no sofá, e muitas vezes, eu e meus primos trocávamos olhares silenciosos na sala enquanto víamos se ela estava mesmo respirando. Engraçado que estou escrevendo esse texto de uma forma que parece que vovó já se foi né? Mas não, o corpo dela continua presente entre nós, só a sua lucidez que se foi, e nós meio que já aceitamos que ela não está mais aqui, não reconhece ninguém, apesar de continuar com um sorriso lindo no rosto e uma receptividade calorosa e cheio de alegria. Todo réveillon, quando a família se reúne, certeza que cada membro da família diz em voz baixa “2017 e ela ainda está aqui, caramba!”. Daí a gente coloca um prazo para o próximo fim de ano, e lá tá ela de novo. Minha vó já passou dos 100 anos, é sério.

Ana e vovó edite

Vou visitá-la menos do que eu gostaria, ainda que tente ser mais presente possível. Confesso que é difícil chegar e não encontrá-la mais, não ouvi-la me chamando de Nana, não presenciar aquele foguete de um metro e cinquenta e cinco andando rápido de lá pra cá falando sem parar e repetindo todas as histórias de amor e revolução em sua vida. É sempre muito difícil fazer uma visita ainda que seja muito feliz tê-la entre nós de alguma forma. E hoje, de algum modo, eu queria que ela soubesse o quanto foi uma pessoa essencial, fundamental e inspiradora, não só para o nome desse blog, mas pela pessoa que me tornei, depois de tantos anos morando em sua casa e convivendo tão de perto com essa mulher incrivelmente forte, resiliente e que é toda amor e doação.

Feliz dia dos avós para todos esses seres incríveis e mágicos. Que podem tudo, que são tudo de bom na vida de seus netos.

Te amo, vozinha!

(Atualmente Vovó Edite mora com a minha tia, sua única filha mulher, na qual é cuidada, amparada e amada. Nem todas as vovós tem um membro da família que possa dedicar tanto tempo aos seus cuidados, e por muito tempo tive uma imagem distorcida de lugares que acolhem velhinhos, até visitar alguns em um período em que pensávamos nessa possibilidade. Acho que vale um post depois falando mais sobre o assunto, sobre casa de repouso sp e similares. Muitas pessoas chegam através de pesquisas do google aqui no blog procurando sobre esse tema. Passei a entender que o abandono não ocorre quando o idoso vai pra um outro lugar após ficar impossibilitado de morar só, de perder a sua autonomia, ele ocorre de fato quando o afeto e a presença da família não se faz mais rotineira).

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Ana Medeiros
É a neta de D. Edite. Ana comanda o #ACQMVQ e vive diariamente decorando aqui e ali. Trabalha home office produzindo conteúdo para o blog e outras empresas das internetes. É mãe de dois pioios lindos, ama comer, desaguar nas palavras, e não dispensa uma caipirinha no fim de semana. Sabe que ser livre também é perder o controle, que morar é mais do que habitar e que um abraço apertado é melhor que banheira de ofurô.
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1 Comentário

  1. Bom dia Ana
    Óbvio que o seu post tocou milhares de corações saudosos de vó e, também, daquelas que ainda as tem presentes em suas vidas.
    Elas nos fizeram sentir amadas e, por isso, creio, conseguimos transmitir aos nossos filhos um amor incondicional que educa e acolhe…
    Um beijo carinho para D.Edite que te amou e a todas as vovós presentes.
    S.O.
    Rio

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