Uma década e dez posts pra comemorar

No dia 10 de Setembro esse blog completou 10 anos na internet. Sem festas, sem rebuliços, sorteios e posts comemorativos, completou sua década quietinho e por ene motivos.

Vivi na casa da minha vó dos 15 aos 23 anos e é sobre ela que quero começar a falar por aqui. Dona Edite é paraibana, mas morou no sertão pernambucano até sua vida adulta, quando decidiu juntar o pouco que tinha e procurar um emprego em Recife. Minha vó quando tocava nesse assunto ela dizia “Sabe Nana, todo mundo achava que eu estava vindo pra capital ser puta, mulher direita sequer podia ficar na janela de casa vendo o movimento da rua. Eu não queria isso pra minha vida”.

Minha vó conheceu Moisés no trem. Segundo ela, pediu uma informação pra ele numa estação, entrou no vagão e partiu. Na próxima estação meu avô mudou de vagão e foi em sua direção. Se conheceram melhor, casaram, tiveram quatro filhos. Anos depois ele conheceu uma outra pessoa, se apaixonou, teve mais um filho com ela. Saiu da casa da minha vó somente depois do casamento de sua única filha mulher, mesmo mantendo a relação com sua nova parceira, mesmo não mantendo mais nenhuma relação com minha avó, além da mulher que passava suas camisas e fardas do exército impecavelmente.

Minha vó conta que essa época foi extremamente difícil. Ela nunca deixou de amá-lo. Mas não tinha como sustentar uma casa sozinha, não queria perder a estrutura familiar por causa dos filhos, e enfim, tinha deixado seu emprego de costureira que exerceu nos primeiros anos na cidade, ficou fora do mercado de trabalho durante muito tempo.

Moisés era militar, era conservador, era machista, e até onde eu sei, jamais permitiu que minha vó tivesse seus prazeres contemplados, inclusive em ter uma casa da forma como ela queria ter. Foi entre tantas conversas sobre esse assunto durante todos os anos que morei em sua casa, que quando pensei em criar um blog de decoração essa frase me veio instantaneamente ao pensamento “A casa que a minha vó queria”. Além de ser algo que a homenageia, de uma forma doce e verdadeira, é também um nome que denuncia, que lamenta e que se torna de alguma maneira, e talvez só pra mim, um grito de indignação.

E por que estou contando sobre isso? Porque muitas mulheres me perguntaram e vez ou outra ainda me perguntam por email ou directs nas redes sociais como lido com minha vida após ter casado, separado, tido dois filhos. Como trabalho, como namoro, como saio com meus amigos. E vou começar a escrever sobre isso semanalmente aqui no meu blog. Falar sobre quem está aqui do outro lado durante todo esse tempo. Sei que pra muita gente isso é total irrelevante, mas sei que para muitos, e principalmente para quem me acompanha desde o começo e tem ainda apreço pela leitura blogueirística (haha), vai ser bacana e vai nos conectar ainda mais.

Os posts sobre maternidade, por incrível que pareça, são geralmente os que mais repercutem e que me trazem trocas intensas e verdadeiras. Quero falar mais sobre esse tema, quero falar mais sobre mim,  quero falar mais sobre como dona Edite me ensinou sobre sobrevivência, liberdade e feminismo.

Sim, na contramão do que hoje as pessoas buscam na internet, irei comemorar meus 10 anos deixando o blog ainda mais, ou pela primeira vez, um diário de textos intensos e verdadeiros. Dez posts. Quero escrever um livro próximo ano, um sonho ousado, mas é um sonho. Minha vó teve muitos dos seus sonhos deixados de lado.

Mulheres, espero vocês. Pra mim não há maneira mais importante de comemoração.

 

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Ana Medeiros
É a neta de D. Edite. Ana comanda o #ACQMVQ e vive diariamente decorando aqui e ali. Trabalha home office produzindo conteúdo para o blog e outras empresas das internetes. É mãe de dois pioios lindos, ama comer, desaguar nas palavras, e não dispensa uma caipirinha no fim de semana. Sabe que ser livre também é perder o controle, que morar é mais do que habitar e que um abraço apertado é melhor que banheira de ofurô.
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7 Comentários

  1. Olá Ana, não conhecia o Blog, cai aqui navegando pela internet e não consegui não de me emocionar com seu texto, com sua sinceridade. Assim como você, minha vó é minha fortaleza, ela teve um vida difícil, mas nunca deixou de perder a esperança, a serenidade e a fé na vida. Cada um tem suas batalhas e todas elas nos fortalece para algo maior, tenho certeza que sua vó tem orgulho da família e da neta que educou. Que seus sonhos voem alto e que consiga tocar o coração dos leitores, assim como tocou o meu. Um beijo!

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