Sobre o sonho e o destino alheio

O destino está impresso na parede. Aliás, impresso não. Foi pregado com fita adesiva. Ainda não existem essas tintas que colam destinos, mas há quem coloque as letras em ordem nas paredes em cores, com outras tintas por cima. Lá também tem um mapa e algumas marcas de onde cada um passou. Há o futuro, as próximas e outras férias, as regiões desconhecidas e os sonhos que se misturam a elas…Os oceanos estão brancos. Cada um dos quatro sonha com o que ver e ser no mundo e o sonho é individual, alheio, solteiro. O lugar pode ser compartilhado, podem conhecer juntos um dia. Eles todos sonham mesmo acordados. Já sonham logo cedo, antes do café da manhã e continuam até mais tarde antes de dormirem de novo

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Olha meus espelhos fofos da ACQMVQ.

 

Olha aqui as nossas marcas.

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Cada um tem uma cor. A minha é a amarela. 🙂

Lelê perguntou se vou sentir saudade dele e inocentemente eu respondo que sim sem saber exatamente o que ele trama.  Ele explica:

– Mamãe vou morar nesse lugar verde ali. Como chama?

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Gael, que já sabe ler, ajuda o irmão:

– É a Austrália!

E o Levi continua:

– É isso! Eu vou morar na Austrália. Meu trabalho é lá, mãe. Eu vou construir um “pédio”(prédio) perto da praia e um castelo de areia. Eu trabalho construindo prédio igual o papai.

Quem tem mais de um filho deve conviver com a disputa entre os irmãos pra ter a atenção dos pais. Logo ouvindo o que o Lelê falou,  Gael já vem me gritando contando seus planos também.

– Mãe, mãaaaaae! Sabe onde eu vou morar? Na Alemanha. Eu vou trabalhar desenhando os carros da BMW. Olha esse aqui que eu fiz…

Corre no quarto e traz o último desenho do caderno.

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Tenho a sensação de que esses dois não são meus e sim do mundo. Já sentiram isso?! Vejo as mães tão dominadoras e quando falam MEEEEEEEU é quase sempre no sentido de que o filho é a sua vida, razão, motivo pra existir… Por mais que eu seja, obviamente, apaixonada por meus filhos, sinto que não são meus e que tenho que me preparar para o dia que vão sair de perto de mim! Vai chegar a hora que vão ter que administrar a própria vida e seguir, cada um, seu destino, com as escolhas próprias e não as minhas.

Mas é claro que vou dar pitaco…. Mas as escolhas não são minhas.

Nem os sonhos são.

Eu lembro que quando eu era criança sonhava em ser aeromoça. Ahhhhh, eu olhava aquelas mulheres sempre arrumadas e orientando os passageiros sobre como agir num momento de desespero e achava tão bacana! E eu queria viajar pra outro lugar que não fosse Uruana (A cidade que passava todas as férias quase quando era criança). Eu também queria conhecer o que tinha ali mais pra frente. Um belo dia um tio resolveu perguntar o que eu e minha prima queria ser. Na verdade, minha prima sempre quis ser aeromoça também, mas acho que ela já sabia que aquela não era uma boa resposta para dar pra aquele tio. Não faço ideia do que ela respondeu, mas acho que foi médica, pediatra…e eu, sonhadora como sempre fui, soltei o meu aeromoça. Meu tio logo veio com uma resposta:

– Garçonete de avião?????

Me senti constrangida demais! Mas entenda que meu tio não tinha nada contra as aeromoças. O que ele tinha era uma expectativa alta em relação a minha escolha. E na minha família… as pessoas tem um jeito diferente de expressar as coisas. Por exemplo, meu pai outro dia disse que ia me dar um presente e eu fiquei até animada. Ele me perguntou em seguida se tinha balança em casa e disse que ia me dar uma de presente. Entende? Ele queria APENAS dizer que eu estava engordando. Agora ele já aprendeu a lição, gente. rs

Voltando ao meu sonho. Eu desisti de ser aeromoça, mas teve um momento na minha vida, lá pelos meus 20 e muitos, que realmente percebi que podia ter sido aeromoça. Comissária de bordo que chama hoje, né?! Resgatei o meu olhar de admiração pelo sonho e parei de sentir que era “errada” aquela escolha. Era, de verdade, uma opção pra mim.

Os sonhos dos nossos filhos são deles. Não interessa se parecem tão distante da realidade. A idade nos traz pra mais perto do chão, mas algumas coisas não são só chão e outras coisas de crianças não são só imaginação. As etapas da vida colocam na balança qual das duas coisas devem pesar mais e elas duas juntas também serão parte da decisão.

Não despreza o sonho do seu filhote, tá?! E ainda dá tempo de realizar alguns seus… Mas não conta pro teu tio. rs

7 comentários em “Sobre o sonho e o destino alheio”

  1. Amei o texto, bem reflexivo!Não tenho filhos ainda mas tenho certeza que terei grande dificuldades na hora de desgrudar..mas Deus está me preparando para isso. Rs Bj

  2. Silvia Orchidea

    Existe sempre a expectativa ,paterna e materna, que os filhos estejam amparados financeira/e caso os dois não possam, por um motivo ou outro, protegê-los. Talvez por isso optem por induzir os filhos à profissões chamadas de estáveis…Se eu queria ser arqueóloga ao término do meu segundo grau aos 16 anos… Acabei na cátedra de Sociologia e História…Nao desenterrei história …mas fiz história nas salas de aula… Amo de paixão meus pais, porém eles não soltaram o cordãozinho do amor… Meus filhos escolheram suas profissões.

    Gabi, amei seu texto e tão importante lembrar que os filhos são do mundo, só nos cabe a orientação.
    Bjs

  3. Moema Bella

    Texto maravilhoso como sempre! Está lindo o quarto! Que esses seus meninos lindos tenham os sonhos realizados!

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