Sobre o dia que conhecemos um rei de verdade

Tenho um aluno muito dedicado nas aulas de português para estrangeiros. Sempre o observava. Toda vez que ensinávamos os sons das palavras,  fazia mil caretas tentando pronunciar as sílabas corretamente. Eu ria e ele ria de volta, sempre muito simpático. Aliás, sempre foi extremamente educado e generoso. Nos cafés da manhã na escola, Paul sempre esperava as mulheres pegarem os pães de queijo e para as crianças, pegava um e levava até elas. Entre as mastigadas de pão ou frutas que traziamos, se alguém quisesse algo, largava seu copo de suco, o que tivesse na mão e ia até a mesa pra pegar pra essa pessoa.

Um dia descobri que o Paul trabalha consertando carros batidos. Paralelamente, como sou muito curiosa, descobri também que o Paul tinha uma galeria de artes no país que vivia e como adoro artesanato, coisas peculiares, me apaixonei pelos quadros e esculturas que ele me mostrou nas fotos do seu celular. Até comentei que um dia poderia  fazer isso aqui no brasil ou trazer aquelas coisas pra cá. Ele sorria e me acalmava  da minha ansiedade dizendo que hoje, o que ele faz nos carros é arte e que essa era a arte da vida dele agora. Paul ama seu trabalho e me mostrou ontem as fotos do ambiente . Pessoas trabalhando, carros, claro… fotos do seu dia a dia que ele considera arte.

Decidi que o Gael  iria as aulas de português sempre comigo, quando desse e se envolveria, de alguma forma, com todas aquelas pessoas. Os homens amam o futebol brasileiro e conversam com ele, num português esforçado misturado com inglês, sobre os times preferidos. Sábado até levou a bola e a bola é sempre um quebra-gelo pro Gael.

No final da aula dessa semana, uma repórter veio entrevistar os alunos pra uma matéria e o Gael, mesmo com a bola no pé, observava cada palavra dita em inglês, traduzida por nós, as professoras. Cada pergunta da repórter, vinha com outras perguntas nossas,  curiosas sobre a história de Paul. Mais uma vez, ele nos surpreendeu.

Paul é de uma família real em seu país. Na verdade, Paul é um rei, mas um rei que fugiu do seu reinado e hoje, seus súditos aguardam seu retorno para salvar o povo. Paul ficou com a coroa com a morte do seu tio, o antigo rei. Nessa cultura, se o rei morre, automaticamente o Paul assume tudo que o antigo rei deixou pra trás. Neste caso, sua tia é sua esposa agora e seus sobrinhos são seus filhos. É importante entender que é uma cultura diferente e para nós, é impossível entender a lógica de algo que não fazemos parte. Apenas respeite o que vem agora.

Mesmo que para o Paul a tia não seja sua mulher de verdade e nem aquelas crianças seus filhos, ele tem um enorme amor por eles e uma consideração como sim, um pai teria. Hoje ele trabalha também para poder mandar dinheiro para sua “ esposa e filhos “  sem negar a eles o amor que deve ter, como rei. Porém,  Paul não quer assumir seu reinado. Com a morte do rei, ele precisa escolher sacrificar algumas pessoas  para servir o rei passado na morte.  Paul se recusa a continuidade dessa ação. Logo, não tinha opção e pediu refúgio no brasil. Sim, ele ama seus súditos, suas raízes, sua família, sua trajetória, mas decidiu viver uma outra vida. Paul não pensa em voltar pro seu país de origem e talvez, nem possa. Quem sabe se sua vida estaria segura com essa posição?!

Lembram que o Gael tava lá e ouviu toda essa conversa?! Mas não, ele não teve pesadelos. Não, não está com medo do Tio Paul, como ele chama a todos. São todos tios ou tias pra ele.

Na volta pra casa repassamos o que ele ouviu e tentamos repassar de uma maneira mais leve, SEM dar foco no sangue escorrendo. Acho que ele jamais esquecerá isso. Paul tem um problema que é tão maior que nós e envolve tantas pessoas. Gael me fez várias perguntas: se o tio Paul tem espada, se ele nunca vai voltar pro reino… e também mostrou enorme compaixão com isso tudo e principalmente, com o tio Paul que teve que tomar uma decisão tão difícil, mas está sempre sendo bondoso com todos.

Não somos melhores que ninguém por esse motivo, mas o que nos transforma a vida não é aquilo apenas que podemos comprar. Sei muitas coisas boas que o dinheiro pode nos ajudar a ter. Mas e no mais?!

Eu fico vendo hoje as mães numa disputa pela perfeição tão grande, criando seus filhos numa bolha, fora da realidade, apenas vivendo a tecnologia e um super investimento em super poderes para os pequenos. Como se eles pudessem tudo, como se a construção de um caráter forte tivesse sendo comprado com uma educação ausente, como se eles não pudesse viver nada de ruim, não pudessem saber nada de ruim, nem entender que existem outros além deles. Mãe, por favor, saiam desse mundo de mães super hiper duper protetoras que fazem barulho nos grupos do facebook quando seus filhos precisam respeitar o horário de lanche nas escolas particulares e não podem comer o lanche na hora que quiser, como o resto da turma. Que brigam nas escolas se seus filhos precisam sentar no chão numa dinâmica de classe. As escolas precisam ter tapetes finos e macios para os filhos. Contos de mães, pasmem, que invadem a escola na hora do recreio para tirar satisfação com crianças sobre o que fizeram com o bebê delas durante a aula. Sim, e esse caso conheço dois. Em escolas diferentes, com crianças diferentes.

Por essa razão, por favor, ensinem os seus filhos o que é a misericórdia, ensinem seus filhos sobre respeito, falem sobre como ter compaixão é saudável e descolado, bacana, valioso. Saiam da bolha, deixem eles conhecerem as pessoas, pessoas de verdade, deixem eles se decepcionarem, deixem eles se envolverem com crianças, como crianças, se resolvendo como crianças, com outras crianças. Permitam que respeitem a todas as pessoas. Esse é um dos melhores investimentos que você irá fazer.

E contem sim histórias sobre super-heróis, sobre sacis, sobre reinados e príncipes e princesas, mas contem, por favor, sobre reis de verdade, sobre pessoas que precisam lutar pra ir a escola. Contem aos seus filhos sobre atitudes nobres no dia a dia. Contem a história de rei Paul: Um rei sem reinado, sem riquezas, mas que resolveu servir a qualquer um que cruze a sua vida. Um rei que é a favor da vida.

Contem sobre pessoas que a vida inspira a gente por dentro.

9 Comentários

  1. Que história incrível! Ele devia pensar em escrever um livro. Eu compraria e recomendaria, porque a história tem muito potencial. <3
    E o contato com outras culturas, com outras pessoas, outros conhecimentos, é tão engrandecedor, que eu considero injusto deixar uma criança fora disso.

  2. Adorei o texto, simplesmente porque é simples assim, como a vida realmente deveria ser. E nessa redundância, a vida deveria sempre Ser e não Ter. Em casa tentamos passar valores de cidadão, de ser humano, ao nosso filho. Deixar a mulher subir no ônibus primeiro, levantar-se para o necessitado sentar, apagar a luz, jogar o lixo no cesto de lixo, não pegar o que não é seu etc. Ele me pergunta o que eu gostaria que ele fosse quando crescesse, eu respondo sempre, Feliz. Só quero que meu filho seja feliz, porque sendo feliz alcançará sucesso.

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