Sobre luto e comunidade

Era uma vez, na comunidade de residentes do sul, na costa do noroeste do Pacífico, uma orca fêmea deu à luz um filhote, mas o bebê morreu em uma hora. A mãe, conhecida como Tahlequah ou J35, carregou seu filhote morto por vários dias, atraindo a atenção mundial em seu espetáculo de luto. Mais de uma semana se passou e Tahlequah não deu sinais de desistir, mas conforme ela ficava mais fraca, as outras orcas fêmeas em seu grupo se revezavam carregando o filhote morto em uma impressionante demonstração de apoio maternal e comunidade.

Não foi um mero gesto. O filhote pesava 180 quilos e estima-se que o orca nadou cerca de 1.600 quilômetros durante o que ficou conhecido como “turnê do luto”. Milhões de pessoas em todo o mundo simpatizaram com Tahlequah e responderam criando ensaios, poemas e obras de arte. Ficamos naturalmente cativados quando os animais agem de maneiras que parecem se encaixar na narrativa humana; instintivamente projetamos nossas próprias emoções em outras espécies. As orcas podem realmente valer a comparação. Entre os mamíferos mais inteligentes e sensíveis, eles viajam em clãs organizados, têm interações sociais complexas e se comunicam em uma linguagem distinta. As orcas vivem em grupos matrilineares e ficam com suas mães por toda a vida.

Após 17 dias e várias notícias, Tahlequah finalmente soltou seu filhote de volta ao oceano.

As pessoas ficam desconfortáveis ​​com o espetáculo de luto da orca, como se fosse anormal e doentio. Não. Somos nós que não temos saúde. Esperamos e incentivamos as pessoas a superar a tristeza profunda e a perda muito rapidamente.

Para a maioria das pessoas, Tahlequah foi uma história comovente sobre o poder de uma comunidade de mães. Emocionante. Para tantas de nós, um vazio se abre no peito buscando a nossa comunidade e nos deparando com a solidão, sejamos mães ou não. É como estou me sentindo enquanto escrevo isso pra você.

No começo do ano estudei bastante sobre comunidades online, quis criar a minha. Logo depois entendi que precisava primeiro saber onde eu estava, tinha me perdido dentro do oceano, em meu próprio luto, que não era de um bebê, mas de uma família inteira. Na verdade, da minha ideia de família atrelada a minha completude.

Esse processo tem durado mais tempo que eu imaginei um dia, é um luto permanente, muitos anos. Não é raro o sentimento frustrante de não ter a quem entregar um pouco os meus 180kg. Admiti-lo é também um ponto de partida para a busca de novos laços, que nos ajude a sustentar os processos naturais e dolorosos de simplesmente existir; Precisamos mais da presença física do nosso grupo de apoio do que somos capazes de admitir, assim como ofertar mais do que nos julgamos dispostos.

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É a neta de D. Edite. Ana comanda o #ACQMVQ e vive diariamente decorando aqui e ali. Trabalha home office produzindo conteúdo para o blog e outras empresas das internetes. É mãe de dois pioios lindos, ama comer, desaguar nas palavras, e não dispensa uma caipirinha no fim de semana. Sabe que ser livre também é perder o controle, que morar é mais do que habitar e que um abraço apertado é melhor que banheira de ofurô.
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